POEMA: NOTÍCIA

Notícia
A nuvens trouxeram-me notícias
do céu...
As aves disseram-me como iam
as montanhas...
Coisas estranhas
começaram a dar-se então
com minha alma...


(In Um homem tenta ser anjo)



O último "grande mulato".



Lima Barreto, escritor maldito.

Afonso Henrique de Lima Barreto, nascido em 13 de maio de 1881, sexta-feira, no mesmo ano de publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado, e O Mulato, de Aloízio de Azevedo, foi o romancista brasileiro do começo deste século que mais olhou para sí mesmo para escrever.
"Um personagem de fronteira. Alguém que habitou o limiar de realidades e mundos diferentes, e por esta razão, abrigou em si uma cota de contradições e conflitos. Afinal, nascido mulato em uma família de mulatos, recebeu tão rica educação e requintado ensino escolar, que no final de contas, nem bem pôde ser um mulato, nem bem foi um branco."
( in Morais, Régis. Lima Barreto - O Elogio da Subversão, 1983)
Quando nasceu o futuro romancista de Clara dos Anjos, ainda existia a escravidão negra no Brasil. Para ele, mulato pelo lado materno, essa visão de cativeiro deve ter sido de dramática importância, "comprometendo a sua imaginação". Atente-se no que é negro e o mulato quase às vésperas da "Abolição" e se perceberá como será fácil, devido a essa "versão negra" primeira, a entrada do desalento - ao menos no campo racial - no viver de Lima Barreto. No seu Diário Íntimo, ele já adulto, já sofrido e com o orgulho cansado, lê-se esta queixa, qual gemido: " É triste não ser branco."
Sua obra, então, como ele propõe no primeiro capítulo Histórias e Sonhos, irá, "difundir" as grandes e altas emoções em face do mundo e do sofrimento dos homens". No entanto, apesar de ter na voz a dramaticidade e o fogo dos que rebelam, apesar de ter voltado para o povo e a porção mais humilde dele, foi um autor popular. Por que? Citamos, apenas como instigação, a explicação de Olívio Montenegro, no O Romance Brasileiro, de 1953:
"Faltou a Lima Barreto uma imaginação livremente conceptiva que valorizasse a um ponto de criação fatos e cenas e figuras dos seus romances; que depurasse mais idealisticamente o seu espírito de revolta, que em suma, o libertasse daqueles complexos que as injustiças sociais costumam criai nos mais fortes e orgulhosos. E a contínua reação desses complexos o leitor facilmente descobre através de toda a obra sincera de Lima Barreto. Nos personagens que ele se interna com o gosto quase masoquista de uma segunda encarnação. No mais fiel deles, que se chama Isaias Caminha. São complexos que têm a sua história".



Mas Lima sabia o poder de transfiguração que tem o romance como obra de arte. Assim escreve, em Bagatelas:

" Tendo passado por diversos meios os mais desencontrados possíveis, eu me julgo conhecedor bastante das coisas deste mundo para, com os elementos da vida comum, organizar uma outra, dos meus sonhos, com a qual minore, só no criá-la, a mágoa eterna e inapagável que haja talvez em mim e me turve as alegrias ítmimas."

Apesar da vida irregular beirando a tragédia, Lima Barreto escreveu bastante: romances, crônicas, contos, artigos em jornais, autêntico trabalhador de Letras.

Faleceu em 1º de Novembro de 1922, no Rio de Janeiro, de colapso cardíaco, dois dias antes do pai. Com a sua morte desaparece o último " grande mulato" da Literatura brasileira, o último da literatura oficial. Fecha-se o ciclo que - fossem outras as circuntâncias - iniciaria o escritor negro em alto número nos rumos de uma escrita marcando o seu "particularismo racial" e as consequências desse particularismo. Lima Barreto morre em 1922, marco inicial - ao menos oficialmente - do Modernismo o Brasil. No entando, o Modernismo não verá aparecer misturada às vozes de Mario de Andrade, Menotti del Pichia, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, e depois, Jorge Amado - entre tantos outros - a voz do negro. Após a morte de Cruz e Souza, em 1898, podemos falar mesmo de um amplo silência de poetas negros até o aparecimento de Lino Guedes em 1926. O negro cala-se nas primeiras décadas da República. Produção Nula.

Poema: Em Maio

Em Maio

Já não há mais razão para chamar as lembranças
e mostrá-las ao povo
em maio.
Em maio sopram ventos desatados
por mãos de mando, turvam o sentido
do que sonhamos.
Em maio uma tal senhora Liberdade se alvoroça
e desce às praças das bocas entreabertas
e começa:
"Outrora, nas senzalas, os senhores..."
Mas a Liberdade que desce à praça
nos meados de maio,
pedindo rumores,
é uma senhora esquálida, seca, desvalida,
e nada sabe de nossa vida.
A Liberdade que sei é uma menina sem jeito,
vem montada no ombro dos moleques
ou se esconde
no peito, em fogo, dos que jamais irão
à praça.
Na praça estão os fracos, os velhos, os decadentes
e seu grito: "Ó bendita Liberdade!"
E ela sorri e se orgulha, de verdade,
do muito que tem feito!

(in O Estranho)

Homenagem aos 50 anos de contribuição com a literatura brasileira

O dia 23 de Abril de 2010 sem dúvidas foi uma data de grande importância para o Sr. Oswaldo de Camargo.
A SMPP, por meio da CONE, homenageou o escritor no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo pelos seus 50 anos de literatura reafirmando "a importância de sua reflexão, vivência poética e criação de literatura brasileira."
Em meio a autoridades, familiares, amigos, estudiosos e parceiros de sua jornada intelectual, teve alguns de seus poemas recitados pelo escritor Cuti e o poeta Carlos de Assumpção.



Com emoção e acima de tudo gratidão, o Sr. Oswaldo de Camargo recebeu uma placa comemorativa e a publicação de 5000 livretos contendo fragmentos de sua obra poética em função de sua data.

Por Raquel Coelho
DEDICATÓRIAS

"À CONE - Coordenadoria Especial do Negro,
que idealizou e fez realizar, na Câmara Municipal de São Paulo, o evento comememorativo dos 50 anos de minha estréia literária, que se deu, aos 23 anos, onde publiquei o livro de poemas Um homem tenta ser anjo.
A todos os meus companheiros que escrevem, em especial ao Cuti ( Luiz Silva), Geny Guimarães, Joel Rufino, José Carlos Limeira, José Carlos Capinam, Ele Semog, Edimilson de Almeida, Márcio Barbosa; à memória destes que ja escreveram e se foram - Paulo Colina, Adão Ventura, Arnaldo Xavier; aos que continuarão escrevendo, alicerçados na esperança, e teimando".

Oswaldo de Camargo

A fortuna de Cruz e Souza


João de Cruz e Souza é considerado, hoje - para a maioria dos escritores negros nas sendas de expressar com Literatura o seu particularismo racial - , o grande precursor. Em Luíz Gama, satírico feroz, o abolicionista sobrepuja, muitas vezes, o poeta. Bodarrada, por exemplo, é um látego zurzido contra a sociedade (o satírico revira, comunente, o visível , o risível, aquilo que, por evidente demais, presta-se a ser coberto de ridículo). Trabalha, por razões várias, com exterioridades. José do Patrocínio, é o grande tributo abolicionista , autor também de um romance que poucos conhecem, Mota Coqueiro.

Cruz e Souza, porém, é o eu negro, desentranhado no século XIX, com o Emparedado e quase toda a sua obra, e é no caminho dele que segue grande número de escritores negros à busca da sua melhor expressão.


Cruz e Souza nasceu em 24 de novembro de 1861, dia da festa de grande místico espanhol de que ele tem o nome. Pais, desimportates socialmente: o mestre-pedreiro Guilherme de Souza e sua mulher, Carolina. Já aos oito anos tem propensões literárias; faz versos. Espantava já, por saber rimar. E é na antiga Desterro (atual Florianópolis) que começa a sua formação. De Fritz Müller, sábio alemão que fazia estudos da fauna e flora do Brasil, respeitado na Europa, o negrinho Cruz e Souza mereceu esta frase: " Esse preto representa para mim mais um reforço na minha velha opinião contrária ao ponto de vista dominante que vê o negro como um ramo por toda a parte (talvez sobre todos os aspectos) inferior e incapaz de desenvolvimento racional por suas próprias forças." 1881 é o início de sua amizade com Virgílio Várzea, e como ele redigiu até 1889 a Tribuna Popular. Empenhou-se - está provado - na campanha abolicionista. Virgílio Várzea testemunha que "Cruz e Souza tinha grande paixão pelas idéias humanitárias e serviu-se sempre, como fanático, sem se poupar sacrifícios, na tribuna , na praça publica e principalmente no jornalismo".

( In de Camargo, Oswaldo, O Negro Escrito - Apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira)

"...Um negro retinto e ogulhoso, que teve de enfrentar todos os preconceitos herdados da escravidão e arrancar com a sua Literatura o respeito dos que o conheceram. Um poeta polêmico e que não transigia, com os princípios da beleza que ele escolhe para a sua expressão. Dizem que, sendo negro, não deu importância à sorte de seus irmãos escravos. Mentira! Provam o contrário suas conferências abolicionistas realizadas na Bahia, suas colaborações nos jornais e poemas como Escravocratas, Na Senzala, Grito de Guerra, e Dor Negra e Consciência Tranquila, em prosa (...) Hoje que o escritor negro esta assumindo lenta e firmemente a expressão de suas vivências com o poema, conto e novela, Cruz e Souza não pode ficar apenas nas antologias e edições que bem poucos lêem. Cabe-nos tornar conhecida , sobretudo em nossa coletividade, sua vida e obra, colocá-lo entre nós como um homem igual anós que foi ".


(Grupo Quilombhoje: Abelardo Rodrigus, Cuti, Oswaldo de Camargo, Paulo Colina)



Entrevista de Oswaldo de Camargo a Paulino Santana.


Esta entrevista foi dada ao estudioso de questões negras Paulino Santana (Alaru), no Museu Afro Brasil, (São Paulo - SP), no ano de 2007.


video

A Glória de Carolina Maria de Jesus


Nos meados dos anos 50, alguns anos antes da publicação de Quarto de Despejo, o poema, talvez, mais declamado nas tertúlias que as associações culturais negras realizavam, em São Paulo, lembrando seus grandes homens e datas especiais era “Tem gente com fome” do poeta pernambucano Solano Trindade, que vale citação um tanto prolongada:


Trem sujo da Leopoldina
Correndo correndo
Parece dizer
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Piiiiiiiiiii

(................................)


Só nas estações
Quando vai parando
Lentamente começa a dizer
Se tem gente com fome
Dá de comer
Se tem gente com fome
Dá de comer
Mas o freio de ar
Todo autoritário
Manda o trem calar
Psiuuuuu

(Trecho do poema, publicado em Cantares ao Meu Povo (Poesias), Editora Fulgor, pg. 65)

É a fome não silenciada, o não-ter, o não-ser nada, além de miserável, o ser preta e mulher, além de outros vazios sociais que a vergam e desesperam que a escritora põe no livro que marcou sua trajetória “incomum e perturbadora”, como observam José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine na biografia Cinderela Negra - A Saga de Carolina Maria de Jesus (Editora URFJ, 1994):


22 de junho... Saí triste porque não tinha nada em casa pra comer. Olhei o céu. Graças a Deus não vai chover. Hoje é segunda feira. Tem muitos papeis nas ruas. No ponto do bonde, eu me separei de Vera.


Ela disse:- Faz comida, que eu vou chegar com fome. A frase comida ficou ecolodindo dentro do meu cérebro.


Parece que o meu pensamento repetia: Comida! Comida! Comida!




Quarto de Despejo tem, ainda, algo a ver com o poema Litania dos Pobres, de João da Cruz e Souza, poeta negro catarinense, nascido em Desterro (atual Florianópolis), em 1861.


Dele:

Os miseráveis, os rotos
São as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
Os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
Caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
Dos abismos tumultuários.

Mãos inquietas, estendidas

Ao vão deserto das
vidas.

(fragmentos tirados do livro Faróis)


Com a diferença que, quando Carolina surge com o Quarto de Despejo, morando ainda na favela do Canindé, o número de “miseráveis e rotos” havia crescido assoberbadamente.

Neste número, a maioria negros, pardos, mulatos, por efeito da miséria e da marginalização não estancadas com a Abolição nem com a República que, se se atentasse a respeito da própria etimologia do termo, deveria ser “coisa pública”, isto é, para todos: negros, brancos, índios. Mas não foi.

A trajetória de Carolina - lemos no livro de Bom Meihy e M. Levine - implica a visão de um lado pouco mostrado da cultura brasileira: a luta quotidiana de uma mulher “de cor”, pobre e desprovida de favores do Estado, de organismos sociais, de instituições e até de amigos. Logicamente isto não remete apenas a ela enquanto indivíduo, mas também a todo o sistema que abriga os despossuídos legados ao anonimato. O que a distinguiu dos demais foi o fato de ser um tipo capaz de desafiar a pobreza e seus promotores através de incomum capacidade de luta e perseverança e de uma agressiva personalidade (...) Carolina foi, pode-se dizer, uma guerreira valente contra as tropas da herança racista, antiinteriorana, preconceituosa em relação às mulheres e, sobretudo, uma pessoa afrontadora da marginalidade e da negligência política. Rebelava-se sozinha e por isso jamais chegou a ser revolucionária ou heroína permanente”. (Página 23 do livro citado).

Nascida em Sacramento, cidadezinha rural de Minas Gerais, em 1914, Carolina jamais, pela origem, poderia sonhar com ser conhecida, ter o mínimo destaque na vida ou na sociedade brasileira. Descendia de escravos, fato que na história nacional selou com miserabilidade, e continua selando, o destino de muitos brasileiros. A escola, que cursou até o segundo ano primário, não lhe interessou muito. Nada que a fizesse sobressair. Fica a declaração, lembrada por seus biógrafos, de que sua grande inspiração não havia sido a escola, e sim seu avô, a quem chamava entusiasticamente de “Sócrates africano”.

É com 33 anos, em 1947, que Carolina chega a São Paulo. Dormiu debaixo de pontes, em estradas, passou muitas noites ao desabrigo. Foi doméstica, faxineira, auxiliar de enfermagem em um hospital, na tentativa de sobrevivência que a colocava entre os inúmeros “miseráveis e rotos” postos nos versos de Cruz e Souza.

Por esse tempo, o número de favelados em São Paulo seria perto de 50 mil. Carolina passa a ser um deles. E nesta condição, sempre acompanhada da fome (“o meu dilema é sempre a comida”), dialoga com a cidade:

“Oh São Paulo rainha que ostenta vaidosa a tua coroa de ouro que são os arranha-céus. Que veste viludo e seda e calça meias de algodão que é a favela... o dinheiro não deu para comprar carne, eu fiz macarrão com cenoura. Não tinha gordura, ficou horrível. A Vera é a única que reclama e pede mais. E pede:

- Mamãe, vende eu pra dona Julita, porque lá tem comida gostosa.”

Os primeiros trechos do Quarto de Despejo foram escritos em 15 de julho de 1955, portanto há 50 anos. Grave-se: 15 de julho de 1955 aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.
Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então eu lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. (...)

O livro que deu fama à Carolina é, na maioria de suas páginas, o relato da luta corpo a corpo com a fome, para, no mínimo, sobreviver, manter os filhos. Com a fama, teve ela, por algum tempo, importância de gente bem posta, digna de ser entrevistada na televisão, falar para os jornais , opinar sobre política, literatura, favela, o Brasil... e, também a seu modo, mostrou a crença da escritora no poder da palavra escrita.

Isso se depreende de trecho de reportagem publicada no jornal “O Estado de São Paulo”, em 14 de fevereiro de 1977, noticiando a morte de Carolina:

“Um dia houve uma inauguração de um parque infantil, próximo da favela. Todo mundo foi... conta Carolina. A certa altura, os adultos começaram a expulsar as crianças e a tomar conta das gangorras e balanços. Carolina disse para uma companheira, que morava ao lado: “Este é o tipo de animal com quem eu tenho que viver. Eu os porei no meu diário, assim jamais serão esquecidos”.

A frase foi ouvida por Audálio Dantas, na época um jovem repórter do Diário de São Paulo, alagoano, filho de nordestinos que haviam chegado a São Paulo nos anos 30. Audálio, curioso, perguntou sobre o tal diário. Compilou-o, depois, em 180 páginas e conseguiu um editor”.

Quarto de Despejo é, pois, um diário que sai da vocação literária de Carolina e, com extrema veracidade, da miserabilidade da escritora, um libelo contra a fome e tudo que daí origina.

Surpreendentemente virou um fenômeno ligado ao mercado do livro, tendo vendido dez mil exemplares nos três primeiros dias do lançamento; passados seis meses, 90 mil, chegando a alcançar, no espaço de um ano, a vendagem de Jorge Amado, o escritor brasileiro mais lido.

Mas é sintomático o desabafo da escritora, após sua mudança para a casa de alvenaria na Rua Benta Pereira, no bairro paulistano de Santana:


“Triste glória que não me deixa ter vontade própria. Quero ser eu. Fizeram-me desviar de tudo que pretendia quando morava na favela e ansiava de deixar o barraco. O que sou agora? Um boneco explorado e me recuso a isso."

(Depoimento a Ignácio Loyola, em 1961)

O diário de Carolina é um trecho insólito e “socialmente irritante” entre tudo o que se escreveu no Brasil defrontando as mazela de nossa sociedade. Livro e atitude de recusa. Recusa em não aceitar, para ela, o script apresentado pela cultura letrada branca. A seu modo, rebeldia e, após, o preço a pagar pela rebeldia.

Carolina Maria de Jesus Morreu na madrugada do dia 13 de fevereiro de 1977, pobre e esquecida. Morava, nesse tempo, em Parelheiros, arredores de São Paulo, após residir na sua sonhada “casa de alvenaria” (título de um outro livro que publicou, relativo insucesso de vendagem: 3.000, diante dos 90 mil que ela havia conseguido com Quarto de Despejo).

Passados 45 anos da publicação do diário que a ergueu à fama, este continua sendo uma das mais instigantes indagações sobre a sociedade brasileira. Sobretudo tendo-se em conta os binômios cruciais que agitam constantemente o Museu Afro Brasil: “negro e miséria”, “negro e auto-estima”, que a República de 1889 não conseguiu ainda resolver. Fotografias e texto originalmente publicado no Jornal das Exposições nº 1 de maio de 2005.

Por Oswaldo de Camargo, jornalista e escritor.

Publicação do Museu Afro Brasileiro de São Paulo - Capital.

11 anos sem Paulo Colina (1950 - 1999)


Meu companheiro Paulo Colina, poeta no claro e no escuro. Por Oswaldo de Camargo

A morte do poeta Paulo Colina leva-nos, a nós que o acompanhamos por quase duas décadas, a estas breves mas pertinentes reflexões sobre a finitude do ser humano e a inserção do artista no âmago de causas que, tocando-o, conduzem-no a incomum preocupação com o homem e o mundo. Paulo Colina foi não só um notável artista, mas também um autêntico agitador cultural. Foi com ele, mais Abelardo Rodrigues, Cuti (Luís Silva) e o escritor argentino Jorge Lescano que fundamos, em 1978, no Bar e Restaurante Mutamba, no Centro, o Grupo Quilombhoje, que hoje edita os "Cadernos Negros". Foi a Paulo Colina que deveu a notável atuação do escritor afro-brasileiro em duas Bienais Nestlé, a marcante divulgação fora da coletividade negra da produção poética de jovens escritores afro-brasileiros, com o premiado "Axé - Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira", da editora Global, em 1982. Paulo Colina foi autêntico escritor. Sua presença na União Brasileira de Escritores tornava-o apto a uma visão clara e objetiva da necessidade de o escritor negro inserir-se, sem perda de identidade, na vida geral da literatura do país. Gostava de nos ouvir, por eu ser mais velho (no mínimo 15 anos) e foi com Abelardo Rodrigues, poeta excelente de "Memória da Noite", nosso inseparável companheiro. Chegamos a ganhar o apelido de "Triunvirato"... Poeta lírico, social, poeta autêntico da Negritude, já tornada moderna após os caminhos abertos por Lino Guedes, em 1926, com "O Canto do Cisne Preto", ou Solano Trindade, cantor de "Poemas de Uma Vida Simples", de 1944, em Paulo Colina se acentuou, como em poucos autores da Negritude, a inquietação por uma estética que não fosse tão-só justificada ou medida pela quantidade de livros, mas o esteio para obras que perdurassem no tempo, por serem autênticas, elaboradas e sancionadas por uma alto sentido estético. Daí a pertinência destes versos que tiveram, e têm, justa fama: "Bastaria ao poema apenas/ a cor da minha pele? "Notável a caminhada de Paulo Colina, de sua estréia, com "Plano de Vôo", a "Armas como Beijos". Sua inquietação, nesta estrada, advinda da convicção de que arte não se improvisa, nem é tão-só sentimento e intuição. Há que armar-se, apetrechar-se para trazê-la ao território do perceptível, chamá-la à presença de quem a deseja produzir e distribuir. Daí, muitas vezes, nosso lembrar, em acesas discussões, do verso de Carlos Drumond de Andrade: "Trouxe a chave?". A prosa de "Fogo Cruzado", de 1979, forte e crua muitas vezes, teve sim prosseguimento, num romance que permanece inédito e foi lido e discutido em nossa casa, onde ficamos aquilombados durante toda uma noite comentando e fazendo observações sobre o texto coliniano. Atendeu a elas, sobretudo a respeito de esboçar-se com mais nitidez certos personagens do romance. Rescreveu-o, mas não chegou a nos mostrar a segunda versão. Provou, porém, que estava atento às possibilidades da "arte que talvez não seja ainda", mesmo que entusiasme o que a produziu.Muito se pode escrever sobre Paulo Colina, que na pia batismal recebeu o nome de Paulo Eduardo de Oliveira. Deixou sua marca nos livros que escreveu, deixou na sensibilidade e na consciência de inúmeros leitores. Agora é o momento de nos voltarmos ao que realizou como artista, com redobrada atenção. Foi homem com todos os conflitos de homem, foi artista, com missão assumida de melhorar o que estava fincado ao seu derredor, muitas vezes injusto e mal-afinado com o que deveria ser.


O canto de amor à mulher...

Mulheres, também

Luiz Gama

Luiz Gama, no século XIX, instaura o canto de amor à mulher negra, cujo mais conhecido exemplo é " Meus Amores", publicado pela primeira vez no jornal Diabo Coxo de 3 de setembro de 1865, o autor assinando com o pseudônimo de Getulino:

"Meus Amores"
Meus amores são lindos, cor da noite
recamada de estrelas rutilantes;
tão formosa crioula, ou Tétis negra,
tem por olhos dois astros cintilantes.


Solano Trindade

Em várias encruzilhadas da poética solaniana postam-se, abundantes, cantares à mulher negra, como nestes versos:

"Deixa"

Deixa ó negra
admirar teu corpo
como seu eu fosse Picasso
e modelar-te em pedra
Deixa ó negra
que eu te cante um salmo
com a ousadia de um Salomão [...]

Auta de Souza

De Tristão de Athayde, sobre Auta de Souza:

"Fez versos por amor da Poesia, por um amor tocante, puríssimo da Poesia e não para aparecer ou comunicar uma mensagem. Fez verso para si e para aqueles que mais de perto a cercavam.(...) Auta de Souza viveu em estado de graça e os seus versos o revelam de modo evidente. Daí o grande lugar que ocupa em nossa poesia cristã, em cuja cordilheira sempre há de ser um dos pontos altos mais puros e solitários." (In de Camargo, Oswaldo -
O negro escrito - Apontamentos sobre a presença do negro na Literatura Brasileira, 1987, pág. 66)


"As Mãos de Clarisse"
Causam-me tantos martírios
As tuas mãos adoradas
Com estes dedos de fadas.
Tão formosos e pequenos...
que eu chamaria dois lírios
Se houvesse lírios morenos!


( In "Horto", pág. 75, edição da Fundação José Augusto, Natal (RN), 1970.)



Teixeira e Souza e o primeiro romance brasileiro.



Podemos, pois, assinalar que a presença do "negro inteiro" na Literatura brasileira começa apartir de 1830. Note-se: o negro escravo. No mais são as aparições que já transparecem como, por exemplo, no caso do mulato Antonio Gonçalves Teixeira e Souza (1812 - 1861), com o seu Independência do Brasil, um poema narrativo. Lê-se este primor, forjado com raça e brio, para o momento culminante da decisão da independência da Pátria:


Nada mais de reunião! d' ora em diante
Portugal para nós seja estrangeiro!
Viverá para sí nobre e possante
O Venturoso reino Brasileiro!
Juremos, pois, amigos, neste instante
Com ânimo fiel, nobre guerreiro
Seguir da cara pátria a livre sorte.
Bradando sempre Independência , ou Morte!


E como se saiu , no labor de poeta lírico , o mestiço Teixeira e Souza? Vejamos excertos de Aos anos de uma menina:


Menina, sabes tu porque naceste?
Sabes no mundo qual missão de espera?
Sabes de onde vieste?
Oh! não saias da infância deleitosa
Não entres neste mundo de misérias
morada venenosa!"


Mas Teixeira e Souza não foi so poeta. É também o romancista de O Filho do Pescador (1843), o primeiro romance brasileiro, levando incontestavelmente a primazia sobre Máximas de Virtude e Formosura, da paulista Tereza de Margarida da Silva Orta ( 1711 ou 1712 - 1787), escrito 91 anos antes. Primazia, por uma razão simples: embora nascida no Brasil, Tereza Margarida não é uma escritora brasileira.


"Nada reflete no nosso meio, que ela praticamente não conhecia. As aristocráticas raízes paulistas maternas, de Tereza Margarida, eram afinal de contas, bem européias". [...]

( Hollanda, Aurélio Buarque, In O Romance Brasileiro (De 1752 - 1930, edições O Cruzeiro, 1952).


A primeira obra que se pode chamar romance brasileiro é, pois, O Filho do Pescador, de Teixeira e Souza. E o livro, se não influi literariamente, influi pelo exemplo em outros escritores. Fraquíssimo, não é ele, entretanto, como o de Tereza Margarida - de muito melhor qualidade - uma tentativa solta, ocasional, infecunda. Com ele temos um caminho aberto para outros e para o mesmo autor. O mestiço de Cabo Frio é que dá começo à história do nosso romance brasileiro, situado no Brasil, feito por filho do País, de espírito formado na terra e a ela radicalmente ligado.

(de Camargo, Oswaldo, In O Negro Escrito - Apontamentos sobre a presença do negro na literatura brasileira, 1987, SP)

Entrevista ao Portal-Afro

Portal – Podemos usar a expressão "literatura negra"? Existe literatura negra?
Oswaldo de Camargo - Acredito que a partir do momento que o negro resolve falar de sua realidade e identidade como negro, trazendo as marcas de sua história, mesmo dentro de uma língua portuguesa, ortodoxa, acadêmica, que seja, se ele conseguir fazer isso com arte e se essa literatura estiver sancionada por uma produção, ela existirá. A produção existe. É fato. Portanto, atestada pela produção, a literatura negra existe. Quando o negro pega suas experiências particulares e traz, sobretudo o "eu", a persona negra, com suas vivências, que um branco pode imitar mas não pode ter, o nome que damos a isso é literatura negra.
Portal – Quando surge essa literatura negra no Brasil? É possível identificar suas fases até os dias atuais?
Oswaldo de Camargo - Ela começa a existir a partir do momento que o negro olha para si mesmo e passa a contar como negro suas experiências particulares, suas memórias, sua vida, suas diferenças, sua identidade, mesmo que esta escrita tenha como base um português camoneano. A grosso modo podemos iniciar este movimento com Luís Gama ao escrever o poema "Bodarrada", que traz o problema da identidade negra. Um texto como "Bodarrada" só poderia ter saído de um negro. O branco não pode idealizar isto, pois o autor está trazendo sua experiência particular de negro. É verdade que podemos citar, no século XVIII, Domingos Caldas Barbosa, mas aí de uma maneira mais enfraquecida, o "Eu", mesmo, aparece apenas com Luís Gama. Depois vem Cruz e Souza com "Consciência Tranqüila", "Escravocratas" e sobretudo "Emparedado". Essas obras são particularíssimas, jorram de dentro de um "Eu" negro. Continuando, podemos lembrar Lima Barreto e dizer que uma nova fase da literatura negra se inicia em 1926, quando aparece a figura de um poeta pobre e pequeno, Lino Guedes, que escreve com os olhos voltados para a comunidade negra. A diferença é que Luiz Gama e Cruz e Souza escreveram sobre o negro, mas não para um público negro. Já Lino Guedes escreve como negro, sobre o negro, para o negro, num momento de ebulição cultural e social. Não podemos considerar a obra de Lino Guedes como grande literatura, mas vale como marco do começo da negritude no Brasil. Depois vem Solano Trindade com sua poesia política, contestatória e marxista, que dá um rumo de grandeza à literatura negra cantando e exaltando Zumbi dos Palmares. Um contraponto ao trabalho de Lino Guedes, que era católico e moralista. Podemos dizer que a literatura negra atual segue essas duas tendências, somadas às influências africanas e sobretudo norte-americanas. Portanto, podemos ordenar desta forma: Domingos Caldas Barbosa, Luís Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, Lino Guedes e Solano Trindade.
Portal - Todos estes nomes seriam nomes guias?
Oswaldo de Camargo - Sim, são nomes guias.
Portal - Então Solano Trindade seria o último grande nome guia?
Oswaldo de Camargo - Diria que sim, pois para que possamos medir a importância de um escritor, de sua obra e vislumbrar até que ponto ela influenciou a produção literária de seus sucessores é preciso esperar 30, 50.
Portal – A literatura africana influenciou ou influencia a literatura negra produzida no Brasil?
Oswaldo de Camargo - A literatura negra está enrolada com a literatura ocidental, sobretudo com a norte-americago na, francesa, portuguesa e etc. O escritor negro brasileiro está muito desvinculado da questão africana. Quando ele escreve, está usando os padrões europeus, latinos, padrões herdados por uma cultura, digamos, ocidental. A literatura africana foi na maior parte ágrafa (sem escrita).
Portal - A influência da literatura norte-americana é boa? Não seria mais interessante uma maior proximidade com a produção africana?
Oswaldo de Camargo - Não. Nossa realidade está muito mais próxima da norte-americana. O escritor negro brasileiro conhece muito mais os conflitos e as questões de identidade do negro norte-americano. O africano não passou por isso. Estou falando da diáspora. O escritor africano não foi desraizado, mesmo com a invasão do colonizador ele não foi retirado de sua "casa" e mandado para uma terra estranha. Já os norte-americanos, assim como os brasileiros carregam esta herança. Então, quando o negro escreve no Brasil, ele naturalmente tem mais afinidade com o negro dos Estados Unidos. Uma unidade nascida da experiência comum da diáspora, que foi fundamental.
Portal – Então, diante desse histórico, não há condições para uma unidade ideológica entre a produção brasileira e africana?
Oswaldo de Camargo - A produção literária vem do subconsciente. O escritor não é um ser que escreve à toa. Ele mesmo determina o rumo que quer dar à sua obra. O ímpeto que leva africanos e brasileiros a escrever são diferentes. Os africanos "lutam" contra um invasor, nossa luta é pela afirmação de uma identidade, que foi esfacelada. Nós estamos tentando nos recompor, os africanos estão se defendendo.
Portal – A literatura produzida por brancos que falava de negros foi prejudicial à "causa negra"?
Oswaldo de Camargo - Depende muito do escritor. Por exemplo, Trajano Galvão, que iniciou no século XIX com os ventos do romantismo, olhou ao redor de si, descobriu o negro na senzala. e começou a escrever poemas, a grande linguagem da época, a respeito disso. Foi muito válido, foi muito bom. Ninguém tinha interesse em escrever sobre escravos. Escravos não mereciam literatura. Ninguém se deteria a analisar psicologicamente um escravo, que era apenas uma coisa, um vazio, no mesmo patamar dos animais. Então Trajano Galvão passa a se interessar e ergue o negro a condição de objeto de literatura. Foi uma valorização. Feita por branco? Sim, mas somente poderia ter sido feita por branco, que detinha a literatura naquela época. "Para que surja uma literatura é necessário que haja um caldo literário. E esse caldo já existia no Brasil. Já existiam vários poetas brancos escrevendo sobre negros. Mulatos também escreviam, mas não voltados para a negritude. Veja bem, naquela época, a partir do momento que o mulato escrevia, ele já não era mais considerado como negro. A partir do momento que ele aprende a ler e escrever, viaja para Lisboa e ascende socialmente, ele obscurece suas raízes negras. Portanto não produz essa literatura negra. Ele não tem conflitos de negro. Ele não tem conflitos de cor. Ele não pensa no fator cor. Ele vive com naturalidade a ilusão de ser um branco, por ter ascendido socialmente. Culturalmente era um branco. Então sua produção será geralmente a produção de um branco. Como escritor ele será um branco." "A única exceção que encontraremos no século XVIII será Domingos Caldas Barbosa. Um mulato que volta seu olhar para sua cor e escreve sobre isso. Não é a toa que Manuel Bandeira cita-o como precursor da poesia brasileira. Ele, um mulato, que foi chamado de orangotango por Bocage e de macaco por outros. Foi ridicularizado e humilhado por ter ousado entrar nos palácios, recitando e cantando o lundum, um rítmo de negros. Os intelectuais da época zombavam dele. Ele era satirizado pelos outros escritores. Tudo isso por assumir sua cor e ascendência."
Portal – Existe algum elo que une os escritores brasileiros a outros de mesma língua (portuguesa)?
Oswaldo de Camargo - O fator primordial não é a língua. A personalidade do escritor é que irá dar a cor para a língua. É como Kafka, que nasceu em Praga e fala o alemão. Não houve um encadeamento de experiência de escritores africanos de língua portuguesa com os brasileiros. É difícil imaginar que o escritor apenas por comungar a mesma língua irá compartilhar das mesmas experiências. Não esqueçamos da diáspora... "... Esta experiência enorme de sermos descendentes de escravos marca profundamente toda nossa produção e nossa vida. Tudo que fazemos está marcado pelo fato de sermos netos e bisnetos de escravos. Essa lembrança não se arreda tão facilmente. Portanto, nossa produção terá essa marca, é isto que a torna singular, diferente. É isto que justifica chamarmos o que escrevemos de literatura negra... quando ela tem os quesitos de arte..."
Portal – Como podemos identificar essa literatura que é arte?
Oswaldo de Camargo - É quando lemos um texto que tira o melhor partido das palavras, que se adapta perfeitamente ao que ele quer expressar e esta adaptação não é um texto científico, um compêndio, é um texto com arte. O escritor manipula a palavra com arte. Ele não quer apenas que o texto traga indícios de uma realidade e sim uma coisa complexa, um instrumento que vai mostrar, vindo do subconsciente, uma outra realidade, de uma maneira atípica. A visão do escritor é realista ou supra-realista, que pode mostrar uma realidade muito além do que se imagina, quando for verdadeiro. Caso não seja verdadeiro, não se discute... Não adianta discutir... Não entrou no subconsciente... ... Como dizia Carlos Drummond de Andrade: usar a chave... ele não abriu nenhuma porta... O grande verso do Drummond é "trouxe a chave?" Infelizmente, boa parte de nossos escritores não possui a chave...
Portal - Será por isso, então que a literatura negra é tão pouco representativa?
Oswaldo de Camargo - A literatura de modo geral é um instrumento frágil para se sustentar, independente de ser branca ou negra. Sozinha, a literatura é fraca, por trabalhar com a palavra. Ela não tem as atenções da mídia como tem a música e até mesmo as artes plásticas, por se aproximar mais de uma arte utilitária. Se você não faz então uma literatura academiável, que possa ser discutida em universidades, propositalmente você se marginaliza, pois seu tema é marginal. Você estará usando o instrumento literário para tratar de assunto que não é usual, um assunto que se ocupa da proporção mais empobrecida, menos respeitada, historicamente desvalorizada da sociedade brasileira... E tem mais, a literatura não é apenas escrever, ela tem que vender. As editoras não querem apenas um bom texto, elas querem é vender. Nenhum editor, com raras exceções, publica um texto apenas por sua beleza, ele quer é vender o livro.
Portal – Mas aí ele não tem os mesmos critérios...
Oswaldo de Camargo - Não tem. Nem pode ter, pois essa literatura não esta imbricada num processo tradicional do negro escrever. O negro escreve pouco.
Portal - E lê pouco...
Oswaldo de Camargo - Talvez até por isso. Percebe como é complexo? Por melhor que seja um livro com temática negra, ninguém garante que haverá um publico enorme para ele, pois o grau de impregnacão de uma realidade negra que o escritor quer propor, não existe na sociedade brasileira. O norte-americano já tem esta possibilidade. A sociedade americana está impregnada de uma questão negra, por fatores históricos, etc. A sociedade branca brasileira não é seduzida por este assunto, pelo contrário, esse tema nem existe para ela. Não existe uma questão negra para o brasileiro, em geral. Portanto uma literatura concebida com padrões negristas não terá a ressonância que tem um texto negro nos Estados Unidos. A sociedade americana, até por seu pragmatismo, proporciona ao escritor muito mais chance de vender, justificando um investimento, do que um escritor negro brasileiro de mesma capacidade. O escritor negro brasileiro é um grande herói. Ele aposta muitas vezes no vazio. É um profeta que acredita a despeito de tudo. E eu como um dos mais velhos escritores desta época, estou vendo que vale a pena apostar.
Portal – Mas o senhor é uma instituição.
Oswaldo de Camargo - Não sei... Sei apenas que sou um dos mais velhos. Sou um dos poucos que conviveu com Solano Trindade, o que foi uma grande honra. Comecei muito cedo e digo que vale a pena apostar Quando você escreve um texto nunca se pode prever seu caminho. Este texto pode começar a falar de verdade depois de 50 anos, então é um ato de aposta. Mas vale a pena de fato tentar traduzir, fazer uma nova leitura do país, escrevendo poema, conto, novela, ensaio, dentro de uma visão negra que o branco não poderia ter dado nunca, por não ter a vivência especifica do negro.
Portal – Se o negro brasileiro não lê e o branco que lê não se interessa por nossos assuntos, para quem o escritor negro escreveria?
Oswaldo de Camargo - A pergunta é interessante. Mas, em primeiro lugar o escritor escreve para ele mesmo. Como falou Dostoievsky.. "Eu escrevo para espantar meus demônios." O escritor precisa expor o que sente, dividir o que tem com os outros, mas primeiro consigo mesmo.
Portal – É um ato de angústia, então?
Oswaldo de Camargo - Sim, por que não? Ele pega um fato de sua infância, um amor frustrado, por exemplo. Frustração é que faz boa literatura e não o que dá certo. É por isso que a pessoa equilibrada não pode ser um bom escritor. Um pai de família que chega em casa tira os chinelos, beija a mulher, beija os filhos, senta-se à mesa, nunca poderá ser um bom escritor. Escrever é um ato de desencontro, de angústia. Ele vai escrever para compensar o que não é, desde que tenha talento. É a sublimação pela arte: Eu sou nada socialmente, mas sou um príncipe escrevendo. E este canto é o canto da liberdade, eu escrevo o que quiser. Posso ser um santo ou um demônio escrevendo...
Portal – Canto da liberdade...A literatura seria uma das possibilidades dos negros serem livres?
Oswaldo de Camargo - Sim. "Mas ter talento não basta para ser escritor. Existe todo um aparato para chegar a ser um bom escritor. É preciso saber entender o termo de uma palavra. A palavra pesa. A diferença entre a palavra "belo" e "bonito" pode modificar totalmente o sentido de um texto. O escritor é um alquimista do verbo. Ele tem o dom da mágica, é um demíurgo, cria um mundo com palavras. Para se fazer isto tem que se preparar, "ter a chave", e isto passa pela observação da obra dos outros, pela leitura, pela obsessão por alguns textos que marcaram sua vida. Até para imitar... Não existe um escritor sem outro escritor.
Portal – E nem sem leitor... O senhor é otimista? Acredita na formação de uma geração de jovens negros brasileiros interessados por literatura?
Oswaldo de Camargo - Este é um fenômeno geral. Não acontece apenas com o negro. Não existe uma questão negra isolada da realidade brasileira. Este drama da leitura é um drama geral do Brasil. A leitura não se tornou um hábito, uma paixão, uma obsessão. O Brasil seria outro país se houvesse a obsessão da leitura. A realidade brasileira seria melhor pensada. Haveria uma crítica violenta à estrutura partindo das grandes massas. A vida religiosa seria outra. Eu sou católico. Aqui é somente por tradição, pois as verdades religiosas profundas não são conhecidas... "Qual a força do Japão pós-guerra? Qual a força da Alemanha pós-guerra?. Cultura. E a cultura passa necessariamente pela leitura". "No século VIII foi escrita a Ilíada, de Homero, que se tornou a educadora da Grécia, que era lida pelos poetas ambulantes para o povo, nas casas, nos palácios. Hoje quem substitui Homero é a televisão. Ela está educando? Não, pelo contrário, está nivelando da maneira mais baixa possível, o que interessa a muita gente. E grande parte destas pessoas influenciadas por este subproduto continua sendo negra e miscigenada, que são os que detém as condições de dar o pulo, de dar o salto..."
Portal - A vaidade maior de um escritor é ser lido?
Oswaldo de Camargo - Sim, mas pelo bom leitor, pelo leitor inteligente, que troca figurinhas com o autor, que indaga, é raro mas acontece. Aí é o prêmio máximo. Mas voltando à vaidade, minha vaidade é ter persistido num mesmo rumo. Muitos desistiram e eu consegui. Este é meu grande orgulho.
Portal – Falando em persistência, os Cadernos Negros chegam à sua 23ª edição. Qual sua opinião sobre os Cadernos?
Oswaldo de Camargo - É uma proeza inédita no país, pertence à vida da resistência negra neste país. Examinar literariamente o peso disto já é outra história, uma coletânea é uma coletânea... Se em cada Caderno aparecer pelo menos um escritor com um texto legitimo terá valido a pena. Os Cadernos devem ser elogiados por sua persistência, por serem uma grande referência neste roteiro do negro trazer sua experiência particular de literatura. É uma referência obrigatória.
Portal – O que o senhor pensa dos escritores brancos de hoje que escrevem sobre vivências e temas negros?
Oswaldo de Camargo - Não há nenhuma novidade nisto. É um branco interessado no assunto. Ele fez. A visão dele irá somar-se a outras visões. É uma visão possível. Um branco também vê. O branco está fronteiriço ao problema negro, mesmo sendo da alta sociedade, mas ao lado, a quinhentos metros há uma favela. Mas que fique claro, ele não está fazendo uma literatura negra, está fazendo um livro de sociologia, de etnografia, de recolha de conhecimentos sociais. Quando eu falo de literatura negra, falo sobretudo daquilo que torna a literatura um ato neurótico. Você cria um mundo de um nada, aparentemente nada, mas este nada é você, seu subconsciente, sua memória... Neste campo eles não entram. Vários escritores brancos já escreveram com muita categoria, Florestan Fernandes, Otaviani, Roger Bastide e outros... Mas não peça-lhes para entrar neste campo da literatura que é criar com palavras um mundo calcado tão só na experiência particular de um temperamento. Eu como negro sou um escritor, meu mundo é outro. Até pela geração que pertenço, pela religião que me salva e por minha sensibilidade... O escritor criará um mundo de dentro de si mesmo. Eis o ato neurótico. É o vazio e de repente o mundo.


Poema: O Saudoso guardador das reses

O saudoso guardador das reses
Bem sei que o moço corpo nesta sala
É parte de objetos: mesa, vaso,
cadeiras e a estante de verniz...
E a cidade cerca o véo fundo
do pensamento livre destes ciscos...
Às vezes largo a pressa e o olho baço
percorre a extensão da pele enxuta,
e julgo ali rever o amado sítio
hoje pousado sobre relembranças...
Nas tardes, se vou só, prossigo a luta
para o retorno àquele tempo,
idade inusitada em terras desse nunca
-mais. Contudo em minha pele tento criar,
há muito tempo, um boi...
Bem sei que o moço corpo nesta sala
É parte de objetos: mesa, vaso,
cadeiras e a estante de verniz...
Porém, vos digo: o gado me persegue até agora
e eu cheiro o seu estrume,
só o detém aqui os edifícios,
que os homens erguem contra o bucolismo...
À noite, durmo um nada, suportando berros
de cabras no palheiro d'alma...


(In de Camargo, Oswaldo - 15 Poemas Negros,1959, SP.)

Solano Trindade, O poeta do povo - Aproximações




Solano Trindade, o poeta do povo.


Solano Trindade
nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 26 de julho de 1908, mesmo ano da morte de Machado de Assis, e faleceu no Rio de Janeiro, em 19 de fevereiro de 1974. Sua vida e seus livros podem motivar uma oportuna reflexão sobre o papel da literatura quando examinada como presença na observação das relações raciais do Brasil ou quando, procurando transpor essa questão, busca ser instrumento na tentativa de corrigir o mundo, vergando-se para o lado da justiça, bem - estar e liberdade para todos; caso exemplar deste poeta negro.
No entanto podemos ir além. E aceitar a literatura como construtora espiritual de muitos homens e como definidora de suas vidas. Então, literatura como bem a ser adquirido para alimento e crescimento do espírito, ou companheira da imaginação, essa que, conforme pensamento a Napoleão, " governa o mundo" e que levou Joaqui Nabuco a indagar: " Sem a imaginação, que utilidade teria para o homem a inteligência?".
Aqui, um dos versos mais citados por Solano, falando de suas motivações estéticas, versos que talvez elucidem porque o diminuem ou o exaltam desde o início de seu labor literário:



"Não
discplinarei
as minhas emoções estéticas
deixa-la-eis à vontade como meu desejo de viver...
É grande o espaço
embora se criem limites...
Basta somente que eu sofra a disciplina da vida
mas a estética
deve ser libertada."


SOLANO TRINDADE, POETA DO POVO - Aproximações,
é um texto escrito apartir das anotações que fizemos para a palestra Solano Trindade - Vida e Obra, pronunciada no Teatro Municipal de Mauá (SP), em 19 de agosto de 2008, por ocasição da III Jornada Literária - Centenário de Solano Trindade.

Interessados, falar com Raquel: 6662.4897